Portuguese poem
Preso entre quatro paredes
by Gregório de Matos (1636–1696)
Preso entre quatro paredes me tem Sua Senhoria por golotão de despachos, por fundidor de mentiras. Dizem, que sou um velhaco, e mentem por vida minha, que o velhaco era o Governo, e eu sou a velhacaria. Quem pensara, e quem dissera, quem cuidara, e quem diria, que um braço de prata velha pouca prata, e muita liga! Tanto mais que o Braço Forte fosse forte, que poria um cabo de calabouço, e um soldado de golilha! Porém eu de que me espanto, se nesta terra maldita pode uma onça de prata mais que dez onças de alquímia. Quem me chama de ladrão, erra o trincho à minha vida, fui assassino de furtos, mandavam-me, obedecia. Despachavam-me a furtar; eu furtava, e abrangia, e são boas testemunhas inventários, e partilhas. Eu era o ninho de guincho, que sustentava, e mantinha com suor das minhas unhas mais de dez aves rapinhas. O Povo era, quem comprava, o General, quem vendia, eu triste era o corretor de tão torpes mercancias. Vim depois a enfadar, que sempre no mundo fica aborrecido o traidor, e a traição muito bem vista. Plantar de fora o ladrão, quando a ladroíce fica, será limpeza de mãos, mas de mãos mui pouco limpas. Eles cobraram o seu dinheiro, açúcar, farinha, até a mim me embolsaram nesta hedionda enxovia. Se foi bem feito, ou mal feito, o sabe toda a Bahia, mas se a traição ma fizeram, com eles a traição fica. Eu sou sempre o Braço Forte, e nesta prisão me anima, que se é casa de pecados, os meus foram ninharias. Todo este mundo é prisão, todo penas, e agonias, até o dinheiro está preso em um saco, que o oprima. A pipa é prisão do vinho, e da água fugitiva (sendo tão leve, ligeira) é prisão qualquer quartinha. Os muros de pedra, e cal são prisão de qualquer vila, d'alma é prisão o corpo, do corpo é qualquer almilha. A casca é prisão das fruitas, da rosa é prisão a espinha, o mar é prisão da terra, a terra é prisão das minas. É cárcere do ar um odre, do fogo é qualquer pedrinha, e até um céu de outro céu é uma prisão cristalina. Na formosura, e donaire de uma muchacha divina está presa a liberdade, e na paz a valentia. Pois se todos estão presos, que me cansa, ou me fadiga, vendo-me em casa d'EI-Rei junto à Sua Senhoria? Chovam prisões sobre mim, pois foi tal minha mofina, que, a quem dei cadeias d'ouro, de ferro mas gratifica.