Portuguese poem
Porque, quem em pão se encerra
by Gregório de Matos (1636–1696)
Se no pão vos disfarçais, por cobrir vossa grandeza, já do pão na natureza toda a grandeza expressais. melhor no pão publicais o poder a toda a terra, pasme o mar, e trema a serra, e reconheça o percito, que o Pão é Deus infinito; Porque quem em pão se encerra?
Neste Pão sacramentado, que dos Anjos é sustento, têm as almas grande alento por meio de um só bocado: perdoa a todo o pecado por mais torpe, e desumano, e eu me confesso tirano, porque me não arrependo se estou no Pão conhecendo Ser divino, e ser humano.
Na Ceia se apresentou o Senhor com realidade, neste Pão da divindade, que a todos sacramentou: se a cada um transformou, passando a divino o humano que muito, que o desumano pecador já convertido seja aos Anjos preferido? Que muito, que soberano?
Quem assim o permitiu com tão alta onipotência, que o pó da suma indigência sobre as esferas subiu: quem este pó preferiu à luz, que luzes desterra, que muito a contrária guerra pacifique aos elementos? que muito, que a seus intentos Fabricasse o Céu, e a terra?