Versos Portuguese Gregório de Matos Porque a fama vos celebre

Portuguese poem

Porque a fama vos celebre

by (1636–1696)

Listen in the reader

Porque a fama vos celebre, meu Tenente mercador, dizem em vosso louvor, que vendeis gato por lebre: temo, que o trato vos quebre, e temo, que vos quebreis, quando as bocas não tapeis, que dizem, por onde andais, o modo, com que comprais, e o modo, com que vendeis.

Se vós a boca vazia tapásseis do nosso Alferes, não disseram más mulheres mal da vossa mercancia: que o Alferes a porfia anda estrugindo os quartéis com dous mil aqui-d’El-Reis, porque sois tão mau cristão, que o que vos custa um tostão, vendeis por duzentos réis.

Se os paios, que vós vendeis, são do castelo de vide, guardai-lhe embora a pevide, mas co não a semeeis: porque se esta terra encheis de tão pobre sementeira, sobre perder a queijeira, em que ganhais quatro réis, virão os Almotacéis meter-vos na Leoneira.

Se os paios tão podres são, quando vo-los pede alguém, quando os vendeis muito bem, como é cada qual tão são? o certo é, meu Irmão, que nos trazeis enganados, pois sois na verdade tal, que gabando-os sem sal no-los vendeis bem salgados.

Meu Tenente, e meu Senhor, vós mereceis justamente comer praça de Tenente, porque sois bom tenedor: por força, nem por amor, por jeito, nem por violência pôde nunca a diligência do Alferes vosso parceiro tirar do vosso fumeiro um fole de pestilência.

Por esta terra se conta, que por preços tão diversos destes os paios preversos, que nem vós lhe dais na conta: um contador vos desconta pobres mais de nove, ou dez, dados de graça nem três: mas isto é dito de graça, pois vem revendido em praça, quanto dais sem interes.

Sobre a partida dos queijos, que vós intentais comprar, me dizem, que heis de ganhar mais de quatro percevejos: creio, que destes sobejos tirareis ganância boa, com que honreis casa, e pessoa; mas tenho o meu pesarzinho de ser mercador ratinho, quem é filho de Lisboa.

Quanto ao outro negocinho da frasqueira rosa soles, que intentais vender aos goles a frasquinho por frasquinho: tirareis tal coscorinho deles, como de um crisol, que no sagrado arrebol do convento heis de meter uma filha, que há de ser Madre Soror Rosa Sol.

Enquanto aos demais contratos, para que o dito não quebre, ou vendeis gato por lebre, ou vendeis lebres por gatos: guardai-vos de mentecaptos, que dirão já boto o dente com mofina escarnecente depois de sorver aos goles paios, queijos, rosa soles má cousa, Senhor Tenente.