Versos Portuguese João de Meneses Senhora, por vos lembrar

Portuguese poem

Senhora, por vos lembrar

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De dom joam de meneses a sua dama e hũa partida, sendo moço.

Senhora, por vos lembrar a tristeza qu'em mym cabe e tambem por vos gabar, quys aquisto começar, mas nam sey como vos gabe. Ca vos vejo sem vos ver tam fermosa qu'ee danar-vos louvar vosso mereçer, nem sey cousa que dizer que nom seja desgabar-vos.

Vejo-vos, minha senhora, naçida sem par no mundo, vejo a mym que mylhor fora ca me ver sem vos agora, ter-m'a terra ja de fundo. Vejo-me por vos penado, vejo deos por vos fazer ser de todos mays louvado que por ser cruçeficado nem por seu gram padeçer.

Vy a mym fazer partyda com qu'espera de partyr deste mundo minha vyda, porque nysto soo dovyda de vos mais ver nem servir. Dovyda e eu dovydo, poys desta ey de morrer, nem quero que possa ser, vendo-me de vos partido, ter vida nem mais viver.

Que bem sey que m'ee sobejo viver eu, e isto diguo, porque se cumpro o desejo vosso, meu, segundo vejo que folgays pouco comygo. E se t'aquy desejava de ter vida ou a queria, hera soo porque vos vya e por vos ver comportava quanto mal m'ela fazya.

agora a saudade de vossa gram fremosura, sem nenhũa piadade, faz mudar mynha vontade por fym de minha tristura. E faz-me qu'ey por sobeja vyda tam sem esperança e o qu'a vyda deseja he estar honde vos veja ou morrer sem mais tardança.

E por isto se comprir, minha vida e meu viver querem morte consentir e eu soo por vos servir nam me pesa de morrer. Que bem sey que folgareis, como de feyto folgais, e bem sey que al nom quereis e tambem que morrereis se me çedo nom matays.

Polo qual sem esperar de vos ver mays em meus dyas como quem se ve matar, dixo isto por lembrar que me nam chegou mançyas. Em amar nem em querer, conquanto teve grã fama, sem se nunca desdizer. e depois triste morrer por amor de sua dama.

Por ser de vos apartado me vejo neste periguo, e por ser tam namorado, triste, mal-aventurado, vejo a morte ja comygo. Sem vos ver, porque vos vy, vejo morto meu viver, e tambem, porque party, he a pena que senty tal que nom na sey dizer.

Vejo a morte ja vyr perto soo porque de mym catyvo he meu mal trist'encuberto tamanho que ey por çerto que sam morto sendo vivo. Chora-la triste começo, que bem vejo que me cata, de viver mais me despreço, aos que erey perdam peeço e perdoo a quem me mata.

Mata-me querer-vos bem, sam morto por vos amar, matais-me vos, que nynguem, qu'eu sayba, poder nom tem senam vos de me matar. Mata-me nom conheçerdes camanho bem vos eu quero, e as vezes nam me crerdes, nem vos dar de me perderdes me faz tal que desespero.

E se disto dovidays sem vos eu errar em nada, senhora, vos hys errada e vos mesma me matais, e soes nysto açaz culpada. Mas na ora qu'eu morrer, onde for naquele dya, de laa vos farey saber que perdes em me perder quem vos grande bem querya.

E sabeys como perdido perderdes-me pode ser morrer eu sendo partido, ca sem isso he ja sabydo que me nam podeys perder. Mas por vos serdes servyda, se o nysto soes, senhora, cuydarey nesta partida, porque assy na minha vyda darey fim loguo nes'ora.

E se deste mal que syguo, acho alguem que me conforte, he este tal sabeys que digo que quem for mais meu amiguo folgue mais com minha morte. E, senhora, por fazer-vos a vontade no que posso, perco a vyda por querer-vos, sem lembrar-vos nem doer-vos qu'ee perdida polo vosso.

Polo vosso sem contenda, como vedes, he perdida, ouve aquisto por emmenda, porem nam que m'arrependa de vos ter tam bem servida. Na vontade; que nas obras foram poucas como vistes, e meu mal, que nom sentistes, fez que fyz aquestas cobras, dando myl sospyros tristes.

Fym.

Soes em cabo perigosa, soes tambem crua sem par, soes tambem sempre fermosa, nam soes nada piadosa pera quem podeys matar. E eu sam tam namorado, tam perdido e sem conforto, d' tam deçepado que vos he muy mal contado matar-me, pois que sam morto.