Portuguese poem
As duas bocas
by Luís Delfino (1834–1910)
Ri-te. — Na mocidade há a ilusão radiosa: Freme-te ao flanco, deusa, essa primeira alvura Da aurora augusta, que nasce e tão pouco dura: Frui, criança: mulher, eis o sol, — canta e goza.
Amanhã... vê, já chega a tarde, e inda é formosa: Rompe a noite estrelada, inda azul, inda pura, Enquanto desce ao rosto, e o envolve, e à estrepitosa Torrente de áurea trança, o luar que cai, fulgura.
A vida é esta sombra eterna e impertinente: Há quem ainda contra o mal da vida grite? Vem uma abelha à flor, e outra... e a flor contente!...
Farta-te, velha fome: incha, infame apetite... Se queres tu contudo um beijo, que não mente, Prende à boca da cova a tua boca... — Ri-te...