Portuguese poem
As mãos de minha avó
by Luís Delfino (1834–1910)
Como manhã doirada e cor de rosa, Que as asas cortam de uma pomba mansa, Da minha avó trinava a mão rugosa Nos meus loiros cabelos de criança.
A sua pele fora setinosa, Com reflexos que o sangue à neve lança; Passou com os anos por total mudança, Sem contudo deixar de ser mimosa.
A fina palma o tempo avermelhara, E o dorso, que riscavam grossas veias, Tinha o tremor de um pássaro que pára.
— E eu me dizia: As suas mãos são feias, Mas... quando as abre, abre-me uns céus, que enluara A meiga luz de duas luas cheias.