Portuguese poem
Tomei a triste pena
Tomei a triste pena já de desesperado de vos lembrar as muitas que padeço, com ver que me condena a ficar eu culpado o mal que me tratais e o que mereço. Confesso que conheço que, em parte, a causa dei [a] o mal em que me vejo, pois sempre meu desejo a tão largas promessas entreguei; mas não tive suspeita que seguísseis tenção tão imperfeita. Se em vosso esquecimento tão envolto estou como os sinais demonstram, que mostrais; vivo neste tormento, lembranças mais não dou que as de razão tomar queirais: olhai que me tratais assi de dia em dia com vossas esquivanças; e as vossas esperanças, de que, vãmente, eu me enriquecia, renovam a memória; pois com tê-la de vós, só tenho glória. E se isto conhecêsseis ser verdade pura como ouro de Arábia reluzente, inda que não quisésseis, a condição tão dura mudáreis noutra muito diferente. E eu, como inocente que estou neste caso, isto em mãos pusera de quem sentença dera que ficasse o direito justo e raso, se não arreceara que a vós por mim, e a mim por vós matara. Em vós escrita vi vossa grande dureza, e n'alma escrita está que de vós vive; não que acabasse ali sua grande firmeza o triste desengano que então tive; porque antes que a dor prive de todos meus sentidos, ao grande tormento acode o entendimento com dous fortes soldados, guarnecidos de rica pedraria, que ficam sendo minha luz e guia. Destes acompanhado, estou posto sem medo a tudo o que o fatal destino ordene; pode ser que, cansado, ou seja tarde, ou cedo, com pena de penar-me, me despene. E quando me condene (que isto é o que espero) inda a maiores dores, perdidos os temores, por mais que venha, não direi: não quero. Contudo estou tão forte que nem me mudará a mesma morte. Canção, se já não queres ver tanta crueldade, lá vás onde verás minha verdade.