Portuguese poem
Ícaro
Que queres tu que eu te peça? Um olhar que não consola? Podes guardar essa esmola Para quem ta for pedir, A um olhar de volúpia Que ensina discreto espelho Queres que eu curve o joelho, E quebre todo um porvir?
É audaz o pensamento. Não vês que um olhar é pouco? Eu fora cobarde e louco Se te aceitasse um olhar! A flor da pálida face, Esse raio luminoso, É a esperança de um gozo Que bem se pode evitar.
Este fogo que me impele Para a esfera dos desejos Cresce, vigora nos beijos De uma boca de mulher; Tem asas como as das águias; Nem pousa sobre o granito; Aspira para o infinito; Pede tudo e tudo quer!
É ambição desmedida? Prevejo tal pensamento: A inclinação de um momento Não me dá direito a mais. A chama ainda indecisa Uma hora alimentaste, E agora que recuaste Quebras os laços fatais.
Era tarde! As fibras todas Já vão meio consumidas; Perdi na vida — mil vidas Que é preciso resgatar. Bem vês que a perda foi grande. Quero um preço equivalente; Guarda o teu olhar ardente Que não me paga um olhar.
Alma de fogo encerrada Em livre, em audaz cabeça Não pode crer na promessa Que os olhos, que os olhos dão! Talvez levada de orgulho Com este amor insensato Quer a verdade do fato Para dá-la ao coração.
E sabes o que eu te dera? Nem tu calculas o preço... Olha bem se te mereço Mais que um só olhar dos teus: Dera-te todo um futuro Quebrado a teus pés, quebrado, Como um mundo derrocado Caído das mãos de Deus!
Era uma troca por troca, Ambos perdiam no abraço Mas estreitava-se o espaço Que nos separa talvez. Foras um sonho que eu tive, Uma esperança bem pura; Foras meu céu de ventura Em toda a sua nudez!
Que este fogo que me impele Para a esfera dos desejos Cresce, vigora nos beijos De uma boca de mulher; Tem asas como as das águias; Nem pousa sobre o granito; Aspira para o infinito, Pede tudo e tudo quer!