Portuguese poem
Ii
E elle clamava á moça que ascendia; «--Oh! tu que a doce luz eterna levas, E vais viver na região do dia,
«Vê como rasgam barbaras e sevas As tristezas mortaes ao que se afunda Quasi na fria região das trevas!
«Olha esse sol que a criação inunda! Oh quanta luz, oh! quanta doce vida Deixar-me vae na escuridão profunda!
«Tu ao menos perdoa-me, querida! Suave esposa, que eu ganhei roubando, Perdida agora para mim, perdida!
Ao maldito na morte, ao miserando, Que mais lhe resta em sua noite impura? Sequer allivio ao coração nefando.
«Nos olhos trago a tua morte escura. Foi meu odio cruel que há decepado, Ainda em flôr, a tua formosura.
«Mensageiro de paz, era enviado Um dia á taba de teus pais, um dia Que melhor fôra se não fôra nado.
Ali te vi; ali, entre a alegria De teus fortes guerreiros e donzellas, Teu doce rosto para mim sorria.
«A mais bella eras tu entre as mais bellas, Como no céu a creadora lua Vence na luz as vívidas estrellas.
«Gentil nasceste por desgraça tua; Eu covarde nasci; tu me seguiste; E ardeu a guerra desabrida e crua.
«Um dia o rosto carregado e triste Á taba de teus pais volveste, o rosto Com que alegre e feliz d'ali fugiste.
«Tinha expirado o passageiro gosto, Ou o sangue dos teus, correndo a fio, Em teu seio outro affecto havia posto.
«Mas, ou fosse remorso, ou já fastio, Ias-te agora leve e descuidada, Como folha que o vento entrega ao rio.
«Oh! corça minha fugitiva e amada! Anhangá te guiou por mau caminho, E a morte poz na minha mão fechada.
«Feriu-me da vingança agudo espinho; E fiz-te padecer tão cruas penas, Que inda me doe o coração mesquinho.
«Ao contemplar aquellas tristes scenas As aves, de piedosas e sentidas, Chorando foram sacudindo as pennas.
«Não viu o cedro ali correr perdidas Lagrimas de materno amado seio; Viu somente morrer a flôr das vidas.
«O que mais houve da floresta em meio O sinistro expectaculo, de certo Nenhum estranho contemplal-o veio.
«Mas, se alguem penetrasse no deserto, Vira cair pesadamente a massa Do corpo do guerreiro; e o craneo aberto,
«Como se fôra derramada taça Pela terra jazer, ali chamando O feio grasno do urubú que passa.
«Em vão a arma do golpe irão buscando, Nenhuma houve; nem guerreiro ousado A tua morte ali foi castigando.
«Talvez, talvez Tupan, desconsolado, A pena contemplou maior do que era O delicto; e de colera tomado,
«Ao mais alto dos Andes estendera O forte braço, e da arvore mais forte A setta e o arco vingador colhêra;
«As pontas lhe dobrou, da mesma sorte Que o junco dobra, sussurrando o vento, E de um só tiro lhe enviou a morte.”
Ia assim suspirando este lamento, Quando subitamente a voz lhe cala, Como se a dor lhe suffocára o alento.
No ar se perdêra a lastimosa falla, E o infeliz, condenado á noite escura, Os dentes range e treme de encontral-a.
Leva os olhos na viva aurora pura Em que vê penetrar, já longe, aquella Doce, mimosa, virginal figura.
Assim no campo a timida gazella Foge e se perde; assim no azul dos mares Some-se e morre fugidia vela.
E nada mais se viu fluctuar nos ares; Que elle, bebendo as lagrimas que chora, Na noite entrou dos immortaes pesares, E ella de todo mergulhou na aurora.