Portuguese poem
Ii
Que lance ha ahi, nessa comedia humana, Em que não entrem moças? Descorada, Como heroina de romance do hoje, Alva, como as mais alvas deste mundo, Tal, que disseras lhe negara o sangue A madre natureza, Margarida Tinha o suave, delicado aspecto De uma santa de cêra, antes que a tinta O matiz beatifico lhe ponha, Era alta e fina, senhoril e bella, Delicada e subtil. Nunca mais vivo Transparecera em rosto de donzella Vergonhoso pudor, agreste e rude, Que até de uns simples olhos se offendia E chegava a corar, se o pensamento Lhe adivinhava anonymo suspiro Ou remota ambição de amante ousado. Era vel-a, ao domingo, caminhando Á missa, co'os parentes o os escravos A um de fundo, em grave e compassada Procissão; era ver-lhe a compostura, A devoção com que escutava o padre, E no agnus-dei levava a mão ao peito, Mão que enchia do fogos e desejos Dez ou doze amadores respeitosos De suas graças, varios na figura, Na posição, na edade e no juizo, E que alli mesmo, á luz dos bentos cyrios (Tão de longe vêm já os maus costumes)! Ousavam inda suspirar por ella.