Portuguese poem
Manhã De Inverno
Coroada de nevoas, surge a aurora Por detrás das montanhas do oriente; Vê-se um resto de somno e de preguiça, Nos olhos da fantastica indolente.
Nevoas enchem de um lado e de outro os morros Tristes como sinceras sepulturas, Essas que têm por simples ornamento Puras capellas, lagrimas mais puras.
A custo rompe o sol; a custo invade O espaço todo branco; e a luz brilhante Fulge através do espesso nevoeiro, Como através de um véu fulge o diamante.
Vento frio, mas brando, agita as folhas Das laranjeiras humidas da chuva; Erma de flôres, curva a planta o collo, E o chão recebe o pranto da viuva.
Gelo não cobre o dorso das montanhas, Nem enche as folhas tremulas a neve; Galhardo moço, o inverno deste clima Na verde palma a sua historia escreve.
Pouco a pouco, dissipam-se no espaço Ás nevoas da manhã; já pelos montes Vão subindo as que encheram todo o valle; Já se vão descobrindo os horizontes.
Sobe de todo o panno; eis apparece Da natureza o esplendido scenario; Tudo alli preparou co' os sabios olhos A suprema sciencia do emprezario.
Canta a orchestra dos passaros no matto A symphonia alpestre,--a voz serena Acorda os écos timidos do valle; E a divina comedia invade a scena.