Versos Portuguese Manuel Maria Barbosa du Bocage Iii

Portuguese poem

Iii

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O quadro original eis, oh Marilia, Em que a verdade ha tempos anda envolta, Sem que pinceis deslustrem d'esses tempos Os que fieis copiam pinceis nossos. Tradição verdadeira desarreiga Toda a suspeita de fallaz doctrina, Quando entre mil e mil preoccupados Nos podêmos suppôr de horridas sombras, Formando povo, juram que a piedade Existe em Deus, inda quando te flagella. Não julga o impio assim, que todo é fogo, Que o Deus tem nas paixões, e vive d'ellas; Forma um Nume, que ao seu dictame ajusta, E por elle regula a infeliz vida. Simulacro liberrimo é suave, Dirige a seu exemplo as acções todas, E em tanto que se escuta a natureza, Vae fugindo a razão, e céga a muitos. Ambas, sendo guiadas, não differem, Dos factos aos reflexos só conduzem; E a mesma, que soccorre ao indigente, Que alenta, que consola o triste afflicto, A mesma em si reflecte consternada Quando algum seu alumno entrega os pulsos Voluntario de amor ás vís algemas: Amor, que uma inspirou, ambas approvam, E ambas murmuram aliás da insania Que os humanos colloca a par dos brutos, Queda, vicio total, que os desacorda, Do qual preoccupados, uns aos outros Invenciveis motivam feros males. Ah! não sejam, Marilia, nossas mentes Tomadas do dictame em que jaz crime! Do remorso a lembrança evite a culpa; Um Deus em nosso bem benigno existe, Que te pode escudar o pensamento Ao golpe do que fragil se arrepende. Não são aos actos intenções oppostas, Antes estas áquelles dando exemplos Na contemplação propria culpam a alma.