Portuguese poem
O Bardo na Solidão
by Maria Adelaide Fernandes Prata (1826–1881)
Sentado a meditar sobre um rochedo, Inda joven o Bardo suspirava, Macilentas as faces e encovados Os bellos olhos tinha que n'outr'ora Revelaram d'amor paixão mui terna. De repente expressão feroz, medonha, Ao rosto lhe assomou tornando-o rubro E momentos após, sorriso ironico, Sorriso indecifravel e terrivel Que d'alma traduzia o fel, angustia, Nos labios resequidos se mostrava! Ergue-se o mal-fadado e frias gotas Da fronte lhe dimanam incendida, Vagueando ora aqui, alli errante, A descançar o forçam dor, fadiga! D'um passado feliz reminiscencias, O rosto lhe humedecem d'agro pranto; Tomando então a lyra luctuosa, Aos ventos solta em vão as queixas suas.
Bardo
Horrida sombra me segue! Sombra de perseguição; Quer commigo repartir Eterna condemnação!..
Vai, ó reproba, cumprir N'esse inferno a maldição Que te deitou, moribundo, Um misero n'afflição!..
Ah! de meus progenitores Foste a desgraça, o tormento; Vai! e que entre os condemnados Não tenhas paz um momento!
Tu foste da minha Olinda O cruel, vil roubador; Tiraste-me mais que a vida Levando-me o meu amor!..
Assassinaste meu pae! Minha mãe morreu de dor! E para os vingar, ousado, Fugi longe ao teu furor!
Familia, amor, riquezas, Tudo, cruel, me usurpaste; Quanto à vida me prendia, Homem traidor, me roubaste!
Disfarçado em pobre monge Os passos teus vigiava, E da vingança o momento Opportuno eu esperava.
Esse instante alfim chegou; O disfarce meu deixei, E qual tigre enfurecido, Minha raiva em ti cevei!
Logo após fugi dos homens, Deixando um mundo perverso, E só, entre a natureza, Vivo em magoas submerso!..
Bardo
Meigos sonhos feiticeiros, Dai-me de novo a visão, Dizei-me onde Olinda vive, E se por mim tem paixão;
Dizei-me se de saudades Ella vive, a suspirar, Ou se já no ceu fulgura Dos puros anjos a par;
Ah! dizei se outro mortal Tambem foi por ella amado, Ou se, fiel aos seus votos, Jámais me tem olvidado.
Era na hora em que o sol formosos raios No seio do oceano hia esconder; Era silencio tudo, só se via Nas solidões o Bardo a percorrer;
E no sonho feliz inda scismando, Longo tempo ao acaso caminhou, E no mais ermo sitio das montanhas Co'um venerando er'mita deparou
Curvado tinha o suplice joelho, Tinha os olhos no céo, em oração, Com lagrimas e ais a Deus pedindo D'enormes crimes paternal perdão.
Cilicio duro a cinta lhe cingia, Era a terra seu leito, e recostava Em riga pedra a fronte calva e nua, Eram os céos o tecto que o guardava!
Comia duro pão, mal saboroso E no ribeiro enchia a bilha d'agua Para a sede febril refrigerar Da penitencia em meio d'essa fragua!
D'estio o sol em aridos rochedos, D'inverno a tempestade desabrida, Acolher-se não fazem ao er'mita, A mesquinha choupana, a uma guarida!
Finda a longa oração e quer erguer-se; Mas em vão o tentou mais que uma vez; As forças já exhaustas lhes fallecem, Do moribundo tinha a pallidez.
No coração do Bardo não entrára Ha muito de piedade um sentimento; Mas ao ver espectac'lo tão pungente, Sentiu enternecer-se n'um momento;
E junto ao ancião presta-lhe auxilio, Ajudando-o na rocha a recostar E o velho agradecido lhe pediu Para a seu lado um pouco descançar.
Eremita
Eremita
Que! mancebo! recuas aterrado?!... Meus crimes inda aqui não fazem termo!...
E o Bardo empallidece, treme, fixa O velho que elle afasta horrorisado E não sabe se dorme, vela, ou sonha, Ou se vive sem tino, delirado..
Eremita
Eremita
Bardo
Eremita
E pede a Deus, do er'mita a contrição, Depois de ter ao céo, por elle orado;
E cava a sepultura a quem a sua, Na idade juvenil cavou sem dó, Olha por derradeiro o corpo exangue Que em breve só será do nada o pó!..
Quer depois arvorar na pobre campa A efigie d'essa cruz da redempção; Mas não vê nas montanhas de que fórme, Venerando signal d'agra paixão;
Atravessa desertos, desce montes, Transpõe formoso rio cristalino E além n'um denso bosque verdejante, Cruz singela formou d'um lenho fino.
Em quanto repousava os lassos membros, Eis que escuta uma voz tão magoada, E tão lugubre, debil e queixosa, Qual a d'Hero expirante, desgraçada!
E ouvindo-a estremece e o coração No peito juvenil forte pulsára; Immovel fica o Bardo, commovido Pela voz tão saudosa que escutava;
Por suspiros e pranto entrecortada Essa voz su'alma compungia E tão só, sem amparo, por est'arte, No silencio dos bosques s'exprimia:
«E'sta vida de saudade, «De pranto e amargura, Em breve s'extinguirá Entre o pó da sepultura!..
Matizar de novo os prados, Ah! talvez jamais verei E das folhas ao pender, No sepulchro cahirei!
O coração já não póde Soffrer a triste saudade E breve virão as horas Solemnes da eternidade!...
E na minha pobre campa, Nenhum mortal chorará, Onde jaz uma infeliz, Ao meu amor quem dirá!..
Contai-lhe vós ternas aves, Zefiros, flores dos prados Bosques, rios e montanhas, Os meus dias desgraçados!
Dizei-lhe que fementido, Jamais foi meu coração, E que vim na soledade Nutrir d'amor a paixão;
Que fiel ás juras minhas, Recusei outra união Que preferi á grandeza Tristezas da solidão;
Mostrai-lhe depois a campa Onde eu dormir somno eterno. Que uma lagrima ahi verta Que exhale um suspiro terno!
Das amigas a mais terna, Leonor, já não existe! Minha fiel companheira Que à solidão me seguiste;
E'ras tu só meu amparo, Quem minha dor mitigava, Quem d'esta triste existencia, Com desvelos mil cuidava:
Nos braços, teus pequenina, Quantas vezes m'embalaste, Na falta d'uma mãe terna, Tu foste que me educaste.
Quando o fado a mão pesada Sobre mim descarregou, Dos dias teus a ventura Para sempre envenenou!
Sósinha não me deixaste Pelo mundo divagar E longe do lar paterno Me vieste acompanhar.
Tão velozes como os ventos, Dous ginetes cavalgamos, Por fiel pagem guiadas, Muitos dias caminhamos.
Sempre boa, generosa, Por mim tudo abandonaste Teu ouro, ricas alfaias, Commigo aqui dissipaste.
Isolada, sem conforto, Minha dor não vencerei E comtigo ó doce amiga Em breve me juntareil..
Nas leves azas dos ventos Ao meu bem por que não vão Os derradeiros suspiros Que partem do coração!..
Sabino! por que não vens Mitigar a minha dor, Para que morra ditosa Nos braços do meu amor!
Não mais o bardo espera e após instantes A amante sua estreita ao coração; Sem dar fé ao que vê, julga que sonha, Ou crê ser um delirio da paixão.
Em silencio se olharam por momentos, Nos olhos tendo d'alma as expressões Que phrazes são inuteis quando amor Em contacto colloca os corações!
Mas em breve do Bardo essa ventura Em pranto se mudou e agonia, D'Olinda a pallidez, signaes de morte No rosto seu exhausto elle só via!
Bardo
Conduzindo-te aqui n'est'hora extrema! Como os anjos no céo amam a Deus, Amei-te eu, ó Sabino, cá na terra! De saudades vivi longe de ti, A vida d'um passado só nutrindo Que me fôra tão caro, tão ditoso!.. Jámais volveu um dia, hora, ou instante Que de ti se olvidasse a tua amante! Meditando ao luar, ai, quantas vezes A abobada celeste contemplava, As estrellas olhando uma por uma, Para vêr se atinava com aquella Que teus olhos formosos estremassem! Outras vezes na lua reflectido Teu rosto figurava meigo e lindo; Quando o sol despontava, eu lhe dizia:– Como outr'ora não és já tão formoso! Nos raios teus não vejo tanto brilho; A presença d'amôr é quem te doira, É elle que abrilhanta a natureza, Quem lhe realça em fim as mil bellezas De refulgir deixaste para mim Quando do meu amor me separaram Esses Fados crueis que me perseguem!..
E a virgem mais e mais empallidesce A morte despiedada vê chegar E na gelida dextra a dextra amada, Pela ultima vez quer estreitar.
Olinda