Portuguese poem
Adão antes de Deus formar Eva
by Maria Adelaide Fernandes Prata (1826–1881)
N'este bello paraiso, Por que não sou eu ditoso?! Por que não enche minh'alma Este quadro magestoso?!...
A terra cheia d'encantos, Este sol que me ailumia, psis Para mim formou Deus tudo; Mas eu ainda mais queria!...
Mais... porém, não sei o que.. O que mais quero fruir.... O coração pulsa forte, A Deus não sei que pedir!...
Ai, além, o cordeirinho Salta alegre na ladeira, Não tem mais que desejar Oh! tem uma companheira!...
As aves ledas gorgeiam Quando a aurora luz fagueira, O pombo arrulla contente, Beija a terna companheira!
Sim, eu devo só viver Para amar o Creador, Admirar suas obras E dar-lhe infinito amor.
Mas rebelde esta minh'alma Quer da terra uma affeição, Ah! Ella a busca incessante, Incessante, sempre em vão!...
Se tambem me fora dado Uma companheira ter, Ao lado seu mais ditoso, De Deus louvára o poder!
O' como bella a imagino, Qual estrella a scintillar, Mais linda que a rubra rosa Que a lua a luzir no mar!
Alva e pura qual cecem, Qual sensitiva mimosa, Sonhei-a do paraizo Mais que tudo ella formosa!
E sçismando sobre a relva Adormece apaixonado, Eis que Deus a mulher forma Que elle vê já despertado.
Ebrio de goso contempla Tantas graças, gentileza E nada encontra mais bello Em meio da natureza.
E curvado para o ceu Ergue as mãos agradecido; no O' elle a quizera em troca Do paraizo perdido...
Com ella a vida fruir, Antes quer sujeito à morte, Quer junto d'ella perder-se, Soffrer o rigor de sorte!
Sem a mulher que sois vós Sol, estrellas, lua, flores? O primeiro homem sem ella, Em vós não achava amores!
Ella só encerra em si O mundo, ceu, paraizo, Para ser ditoso, ao homem Basta um seu meigo sorriso!