Portuguese poem
A Uma amiga
by Maria Adelaide Fernandes Prata (1826–1881)
O' quanto s'empenhou a natureza Em formar-te a mais bella entre as formosas! Dando-te uma alma pura, Uns olhos d'encantar! Que gentileza! Que niveas, rubras faces tão mimosas! Que rosto de candura!
E como sem vaidade te apresentas, Nem teu espelho diz quanto és formoza! Se tu és tão modesta! Do coração os dotes só ostentas, P'ra ti só a virtude é valiosa, Mostras-te sempre honesta!
E quem digno será de possuir-te N'um mundo seductor, perverso, ingrato E fruir tua mão?! Mas ao vêr-te, ninguem póde fugir-te Sim que na idea leve o teu retrato E d'amor a paixão!..
Embora! Deixa-os amar-te, Não te illuda o seu amor. Que só tem penas a dar-te, Suspiros, saudade e dôr!.. Deixa livre o coração, Deixa-o folgar sem paixão; Goza a tua mocidade Como os anjos, sempre pura E volverás com ventura D'aqui para a eternidade; Mas se nasceste p'ra amar; Áma do céo uma estrella, Aquella que mais brilhar, Ou ama a flor mais bella Que no val desabrochou; Ama a brisa que agitou Os teus cabellos dourados E ama a lua que no lágo Deixa com encanto mago Fulgir raios prateados.
Ama tudo é donzella e cautelosa Evita dos mortaes o amor profano, O amor de seducção; Sê como aérea fada vaporósa Que não ousa tocar um ente humano!... Virgem, d'est'arte entrega o coração!