Portuguese poem
Sonho que estás à porta
by Olavo Bilac (1865–1918)
Sonho que estás à porta... Estás - abro-te os braços! - quase morta, Quase morta de amor e de ansiedade. De onde ouviste o meu grito, que voava, E sobre as asas trêmulas levava As preces da saudade?
Corro à porta... ninguém! Silêncio e treva. Hirta, na sombra, a Solidão eleva Os longos braços rígidos, de gelo... E há pelo corredor ermo e comprido O suave rumor de teu vestido, E o perfume subtil de teu cabelo.
Ah! se agora chegasses! Se eu sentisse bater em minhas faces A luz celeste que teus olhos banha; Se este quarto se enchesse de repente Da melodia, e do dano ardente Que os passos te acompanha:
Beijos, presos no cárcere da boca, Sofreando a custo toda a sede louca, Toda a sede infinita que os devora, - Beijos de fogo, palpitando, cheios De gritos, de gemidos e de anseios, Transbordariam por teu corpo afora...
Rio aceso, banhando Teu corpo, cada beijo, rutilando, Se apressaria, acachoado e grosso: E, cascateando, em pérolas desfeito, Subiria a colina de teu peito, Lambendo-te o pescoço...
Estrela humana que do céu desceste! Desterrada do céu, a luz perdeste Dos fulvos raios, amplos e serenos; E na pele morena e perfumada Guardaste apenas essa cor dourada Que é a mesma cor de Sírius e de Vênus.
Sob a chuva de fogo De meus beijos, amor! terias logo Todo o esplendor do brilho primitivo; E, eternamente presa entre meus braços, Bela, protegerias os meus passos, - Astro formoso e vivo!
Mas... talvez te ofendesse o meu desejo. E, ao teu contacto gélido, meu beijo Fosse cair por terra, desprezado. Embora! que eu ao menos te olharia, E, presa do respeito, ficaria Silencioso e imóvel a teu lado.
Fitando o olhar ansioso No teu, lendo esse livro misterioso, Eu descortinaria a minha sorte... Até que ouvisse, desse olhar ao fundo, Soar, num dobre lúgubre e profundo, A hora da minha morte!
Longe embora de mim teu pensamento, Ouvirias aqui, louco e violento, Bater meu coração em cada canto; E ouvirias, como uma melopéia, Longe embora de mim a tua idéia, A música abafada de meu pranto.
Dormirias, querida... E eu, guardando-te, bela e adormecida, Orgulhoso e feliz com o meu tesouro, Tiraria os meus versos do abandono, E eles embalariam o teu sono, Como uma rede de ouro.
Mas não vens! não virás! Silêncio e treva. Hirta, na sombra, a Solidão eleva Os longos braços rígidos de gelo; E há, pelo corredor ermo e comprido, O suave rumor de teu vestido E o perfume subtil de teu cabelo...