Portuguese poem
Nhá Carola
by Paulo Setúbal (1893–1937)
Eia!... O meu baio caminha Por entre nuvens de pó: Vou ver a boa vizinha, Essa adorada velhinha Que eu quero como uma avó.
Nasceu aqui, e aqui mora, Neste retiro de paz. Ah! É uma santa senhora Que inda me quer, que inda me adora, Como há vinte anos atrás.
E hoje, que o dia se engala De tanta luz, tanta cor, Vim, nhá Carola, abraçá-la, Ouvir de novo essa fala, Sentir de novo esse amor!
A casa, tosca e singela, Já eu avisto daqui: E a dona amiga, à janela, Que fundo anseio revela Por me apertar junto a si!
Por isso, quente e festiva, Ao ver-me entrar o portal, Ela, a velhinha afetiva, Mostrando rubra a gengiva, — Ri-se num riso jovial!
Salta-me Ioga ao pescoço. E abraça! E ri! que aranzel! E nesse ingênuo alvoroço, Nem olha que eu já sou moço, Nem vê que eu sou bacharel...
Céus!... É a mesma nhá Carola, Que, enrugada como está, No tempo que eu ia à escola, Enchia a minha sacola De broinhas de fubá.
E eis o sítio. Por tudo aqui eu leio Memórias do que deixei. Eu saio, pois, num passeio, Rever, com dorido anseio, As coisas que tanto amei!
Em frente, limpo e varrido Fica o terreiro de chão: É aí, depois de colhido, Depois de seco e batido, Que se peneira o feijão.
No pasto, o zaino e a ruana Lá estão... Que amigos fiéis! Além, à luz meridiana, Verdes touceiras de cana Fulgem em verdes quartéis.
Raspas de clara mandioca Secam ao sol, num tendal; E range a rude engenhoca, Que um tardo burro desloca, Tranqüilo, patriarcal.
Rudeza assim, doce e branda, Nos sítios hoje nem há! E é bem de ver, numa banda. O amplo forno da quitanda, As assadeiras e a pá...
Os gansos da fazendola Debicam pelo quintal; O galo, um fofo mariola, Ronda as galinhas-d'angola, Como um sultão oriental.
E o pomar... Ruas inteiras De altas árvores senis: São araçás. são mangueiras. São frondosas laranjeiras., Sombreando o asilo feliz.
Camões sonhara Natércia No canto desse pomar! Que paz! Que sombras! Que inércia! Ah, como as limas da Pérsia Aromatizam este ar!
E eu vou por tudo... E eu vagueio Por todos estes rincões. Que delicioso passeio! Tão bom, tão lindo, tão cheio De fundas recordações!
O dia inteiro, numa ânsia Que a palavra não traduz, Fico a lembrar minha infância, Que eu inda vejo, a distância, Banhada de ouro e de luz!
Á tarde, quase à noitinha, Volto... E ao voltar, triste e só, Venho abençoando a velhinha, Essa adorada vizinha Que eu quero como uma avo.