Portuguese poem
Nhô joão, o tropeiro
by Paulo Setúbal (1893–1937)
Por essas noites de frio, Batidas de água e tufão, Num rancho, à beira do rio, Eu me quedo, horas a fio, A conversar com nhô João.
É um velho... Rude e trigueiro, Envolto num ponche azul, Fumando, a olhar o braseiro, Começa o antigo tropeiro Contar-me histórias do Sul.
Ao longe, muito a distância, Os tempos perdem-se já, Em que ele, todo arrogância, Ia de estância em estância, Buscando tropas por lá.
Na sua besta tordilha De manchas brancas no pé, Nhô João, tocando a tropilha, Cortava muita coxilha Para chegar em Bagé!
E lá, de tais cercanias, Ele, viril rapagão, Puxava, dias e dias, Pontas de mulas bravias. Para vender no sertão.
Que linda! Assim que a alvorada Tingia o céu de listrões, Já a tropa, a chucra manada, Trotava ao longo da estrada, Por entre a grita dos peões:
Eh mula! Vorta! Caminha! E os ecos vibravam no ar, Enquanto, lerda e sozinha, Ia na frente a madrinha Com seu cincerro a tocar...
Que vida simples e honesta! Como era bom, no verão, Ter o descanso da sesta, No meio duma floresta, À beira dum ribeirão!
À tarde, quando caía A sombra crepuscular, Era de ver a alegria, Com que a peonada escolhia Um sítio para acampar.
Então, descendo as bruacas, Queimados, fulvos de suor, Sobre improvisas estacas, Erguiam logo as barracas, Soltando a tropa em redor...
Ah, nada mais delicioso, Ah, nada mais doce então, Do que, na calma do pouso, Ter um churrasco cheiroso, E a cuia de chimarrão!
E entre histórias de rodeio, Contos, gauchadas febris, Aos poucos, num devaneio, Sobre os pelegos do arreio, Dormir um sono feliz...
E o velho, a voz rude e grossa, Relembra com efusão: "Que viage... Êta festa - nossa! — No dia em que Ponta Grossa Despontava no espigão..."
A história sempre ele acaba, Pintando, com muita cor, As feiras de Sorocaba, Onde encontrara uma "diaba" Por quem morrera de amor...
Assim, lembrando o passado, Nhô João, com frio desdém, Termina desconsolado: "Hoje tá tudo mudado! Vem tudas coisa no trem...
E ali, no humilde pardieiro, Envolto num ponche azul, Saudoso, olhando o braseiro, Conta-me o velho tropeiro Longas histórias do Sul...