Portuguese poem
Rêve d'amour
by Paulo Setúbal (1893–1937)
Verão. Canícula horrenda. Nenhum rumor. Tudo paz. Dentro, na ampla vivenda, Dorme o salão da fazenda Na meia luz em que jaz...
A cena é típica. Vede: O piano, um quadro a carvão, O espelho oval na parede, E peles de onça no chão.
Com ar vetusto, um ar sério, Largos divãs, um sofá: Mobília, estilo do Império, De negro jacarandá.
Cortinas claras, bem alvas, Dão certo chiste e frescor; Um lindo vaso, com malvas, Verdeja no aparador.
E ali, na penumbra amena, Queda-se o vulto de alguém. É moça. Esbelta e morena. Formosa como ninguém!
Vai nela um tédio, uma quebradeira. Um não-sei-quê de languidez Que estranha moça! É fazendeira. Casou-se há menos de um mês.
E ali, com o talhe ondulante, Vestido de tafetá, Ela, a morena elegante, Quase sorri... Que será?
Sonha... Encostada à janela, Derrama, absorta, a cismar, Sobre a fronteira aquarela, Todo um nostálgico olhar.
Sempre o painel costumeiro! As mesmas cenas banais: A estrada, a tulha, o terreiro, Os montes... os cafezais...
Sonha... E no seu sonho doirado, Num relembrar, grato e bom, Põe-se a rever seu passado De fina moça do tom.
Céus! Que alegrias perenes! Com que prazer, com que afã, Ela, na quadra do tênis, Surgia toda a manhã...
Como era ardente, era franco, Esse entusiasmo de então: Todos vestidos de branco, E de raquette na mão!
E a bola voava... Que graça! Ele... Oh, que sonho gentil: Ante os seus olhos perpassa Uma silhueta... um perfil,
É moço. O todo fidalgo Romântica palidez. Jovial, finíssimo, esgalgo. Loiro como um inglês.
Que bela e curta essa história! Paixão? Capricho? Sei lá... Ela, a sutil merencória, Lembra-se bem... Foi num chá.
Ele, ao dizer o que disse, Punha veludos na voz... Ah, quanta ingênua doidice Não se disseram a sós!
Tarde fugaz, tarde louca, A desse chá singular. O que morria na boca Dizia em chamas o olhar.
Foi lindo. Quase noivado. Foi todo um trecho de sol. Ah, os encontros no prado, Os flirts no futebol.
Depois... Pobre castelo, Pobres sonhos e ideais! Aquele amor, claro e belo, Teve o destino dos mais.
Morreu. Foi breve e fugace. Despetalou, sem florir, Como um botão que tombasse Na tarde que ia se abrir.
E ela evoca o seu desgosto... Repassa a história infeliz, Como quem abre, por gosto, Um talho de cicatriz.
Naquela rude simpleza, No ermo daquele sertão, Funda, mordente tristeza, Confrange-lhe o coração...
Que horror! Que sesta enervante! E ela, com tédio sem par, Sobre a aquarela distante, Deixa os seus olhos vagar.
Olha... E vê, no horizonte, As mesmas cenas banais: — O pasto, o córrego, o monte, Os campos... os cafezais...
Então, no enfaro da roça, Na angústia do seu cismar, Uma lágrima, bem grossa, Despenca do seu olhar...
E linda, o talhe ondulante, Vestido de tafetá, Senta-se ao piano. E vibrante, Põe-se a tocar... Que será?
" Rève d'Amour". Grave triste, Feito de sonho e de unção, A alma sonora de Liszt Enche de sons o salão...