Portuguese poem
São João
by Paulo Setúbal (1893–1937)
É noite... O santo famoso, O doce, o meigo São João, Tivera um dia glorioso, Dia de festa e de gozo, Que encheu de estrondo o sertão.
Já cedo, em meio aos clamores, Aos vivas do poviléu, Lindo, enramado de flores, Um mastro de quentes cores, Subira em triunfo ao céu!
E agora, enquanto, alva e lesta, Palpita a lua hibernal, Na fazenda, toda festa, Referve a alegria honesta Da noite tradicional.
Dentro, com grande aparato. Brilha, enfeitado, o salão: Que há, nessa festa do mato, Pessoas de fino trato, Chegadas para o São João...
Destaca-se entre essa gente A flor do mundo local: O padre, o juiz, o intendente, — O próprio doutor Vicente Que é deputado estadual!
Ante o auditório pasmado, Que, num enlevo, sorri, A Isabelinha Machado Batuta, sobre o teclado, Uns trechos do Guarani...
Tudo o que toca e assassina, Recebe imensa ovação; Todos, quando ela termina, Põem-se a exclamar: "Que menina! Dá gosto! Que vocação!"
E ela, entre ingênua e brejeira, Com ares de se vingar: "Agora, queira ou não queira, Seu Saturnino Pereira Há de também recitar".
Surge. à força, o Saturnino... Rugem palmas em redor! É um tipo, esgalgado e fino, Que sabe, desde menino, Dizer Castro Alves de cor.
Na sala, muda e tranqüila, Tombam, com chama, os versos seus; E ele, o letrado da vila, Ao som da velha Dalila, Lá vai: "Foi desgraça meu Deus..."
Após ouvir a estupenda Flamância do seu falar No amplo salão da fazenda Os velhos jogos de prenda Reclamam o seu lugar.
Começa então a berlinda. Risos. Cochichos. Zunzum. — De pé, donairosa e linda, Pergunta a D. Florinda Os dotes de cada um:
Por que razão, seu Martinho, Foi à berlinda a Lelé? — Porque olha muito ao vizinho"; "Porque é má; porque é um anjinho"; "Porque é vaidosa"; "porque..."
E todo o mundo, à porfia, Põe farpas na indiscrição... E enquanto, ingênua e sadia, Essa campônia alegria Faz tumultuar o salão.
Lá fora, alegre e gabola, Num terreiro de café, Ao rude som da viola, A caboclada rebola Num tremendo bate-pé!
A filha do Zé Moreira É o mimo deste São João; À luz da rubra fogueira, Requebra a guapa trigueira Ao lado do Chico Peão.
Candoca, a noiva do Jango, Baila num passo taful; É a flor que, nesse fandango. Tem lábios cor de morango. Vestido de chita azul.
No sapateio se nota, Aos risos dos que lá estão, Nhô Lau, de esporas e bota, Dançando junto a nhá Cota, Viúva do Conceição...
Á voz do pinho que chora, Por sob a paz do luar, Frenindo vai, noite afora, Essa alegria sonora Da caboclada a bailar!
E do salão, que ainda brilha Num faiscante esplendor, Chegam os sons da quadrilha, Que alguém ao piano dedilha Com o indomável furor.
E no sarau campesino, Nessa festa alegre e chã. Ruge a voz do Saturnino, Que grita, esgalgado e fino: "Balancez! Tour! En avant..."