Versos Portuguese Xavier de Carvalho No Tricentenario De Camões

Portuguese poem

No Tricentenario De Camões

by (1862–1919)

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(a Theophilo Braga)

Se aqui podesse vir Camões, nestes instantes, Da campa onde repousa ha já tresentos annos, Se aquella rude mão que fulminou tyranos E sustentou crueis batalhas de gigantes, Podesse ainda agitar em crispações vibrantes O velho Portugal de heroicos puritanos;

E visse como o altivo estandarte das quinas Tremula esfarrapado ao riso do estrangeiro, As terras de alem-mar vendidas a dinheiro, A patria toda em lama, em trevas, em ruinas, As grandes tradicções no fundo das sentinas E o soluço final d'um povo aventureiro;

Elle, o immortal poeta, e velho combatente, Sonoro coração cheio de amor e gloria, Alma toda febril, vastissima, marmorea; O guerreiro fatal que, erguendo um bravo ardente, Escreveu co'a espada o livro auri-fulgente Onde em lettras de luz fulgura a nossa historia:

Nesse instante talvez, espectro desolado! Chorando amargamente o seu velho paiz, E não vendo da gloria o fulgido matiz Engrinaldar emfim o nosso lar sagrado, Deixava-se outra vez morrer abandonado Batido de vergonha, extatico, infeliz!

Mas contra toda essa atroz miseria hodierna, Vibrae sonoramente! ó almas de leões, E ergamos todos nós, em nossos corações, Ao clarão triumphal da religião moderna, Um sacrario febril de immensa luz eterna, Em que o Futuro adore o vulto de Camões.