Versos Portuguese Francisca Júlia Mudez

Portuguese poem

Mudez

by (1871–1920)

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Já rumores não ha; não ha; calou-se Tudo. Um silencio deleitoso e morno Vae-se espalhando em torno A’s folhagens tranquillas do pomar.

Torna-se o vento cada vez mais doce... Silencio... Ouve-se apenas o gemido De um pequenino passaro perdido Que inda espaneja as suas azas no ar.

Ouve-me, amiga, este é o Silencio, o grande Silencio, o rei das trevas e da calma, Em que a nossa triste alma, Penetrada de maguas e de dor, Se dilata, se expande, E seus segredos intimos mergulha... Prolonga-se a mudez: nenhuma bulha; Já não se ouve o minimo rumor.

Esta é a mudez, esta é a mudez que fala (Não aos ouvidos, não, porque os ouvidos Não conseguem ouvir esses gemidos Que ella derrama, á noite, sobre nós, A’ alma de quem se embala Numa saudade mystica e tranquilla... Nossa alma apenas é que póde ouvil-a, E que consegue perceber-lhe a voz.

Escuta a queixa tacita e celeste Que este silencio fala a ti, tão triste... E has de lembrar o dia em que tu viste Perto de ti, pela primeira vez,

Alguem a quem disseste Uma phrase de amor, de amor... ó louca! E que, no emtanto, só mostrou na bocca A mais brutal e ironica mudez!