Portuguese poem
Senhora Dona Bahia
by Gregório de Matos (1636–1696)
Senhora Dona Bahia, nobre, e opulenta cidade, madrasta dos Naturais, e dos Estrangeiros madre. Dizei-me por vida vossa, em que fundais o ditame de exaltar, os que aí vêm, e abater, os que ali nascem? Se o fazeis pelo interesse, de que os estranhos vos gabem, isso os Paisanos fariam com duplicadas vantagens. E suposto que os louvores em boca própria não cabem, se tem força terá a verdade. O certo é, Pátria minha, que fostes terra de alarves, e inda os ressábios vos duram desse tempo, e dessa idade. Haverá duzentos anos, (nem tantos podem contar-se) que éreis uma aldeia pobre, e hoje sois rica cidade. Então vos pisavam Índios, e vos habitavam cafres, hoje chispais fidalguias, arrojando personagens. A essas personagens vamos, sobre elas será o debate, e queira Deus, que o vencer-vos para envergonhar-vos baste. Sai um pobrete de Cristo de Portugal, ou do Algarve cheio de drogas alheias para daí tirar gages: O tal foi sota-tendeiro de um cristão-novo em tal parte, que por aqueles serviços o despachou a embarcar-se. Fez-lhe uma carregação entre amigos, e compadres: e ei-lo comissário feito de linhas, lonas, beirames. Entra pela barra dentro, dá fundo, e logo a entonar-se começa a bordo da Nau cum vestidinho flamante. Salta em terra, toma casas, arma a botica dos trastes, em casa come Baleia, na rua entoja manjares. Vendendo gato por lebre, antes que quatro anos passem, já tem tantos mil cruzados, segundo afirmam Pasguates. Começam a olhar para ele os Pais, que já querem dar-lhe Filha, e dote, porque querem homem, que coma, e não gaste. Que esse mal há nos mazombos, têm tão pouca habilidade, que o seu dinheiro despendem para haver de sustentar-se. Casa-se o meu matachim, põe duas Negras, e um Pajem, uma rede com dous Minas, chapéu-de-sol, casas-grandes. Entra logo nos pilouros, e sai do primeiro lance Vereador da Bahia, que é notável dignidade. Já temos o Canastreiro, que inda fede a seus beirames, metamorfoses da terra transformado em homem grande: e eis aqui a personagem. Vem outro do mesmo lote tão pobre, e tão miserável vende os retalhos, e tira comissão com couro, e carne. Co principal se levanta, e tudo emprega no Iguape, que um engenho, e três fazendas o têm feito homem grande; e eis aqui a personagem. Dentre a chusma e a canalha da marítima bagagem fica às vezes um cristão, que apenas benzer-se sabe: Fica em terra resoluto a entrar na ordem mercante, troca por côvado, e vara timão, balestilha, e mares. Arma-lhe a tenda um ricaço, que a terra chama Magnate com pacto de parceria, que em direito é sociedade: Com isto a Marinheiraz do primeiro jacto, ou lance bota fora o cu breado, as mãos dissimula em guantes. Vende o cabedal alheio, e dá com ele em Levante, vai, e vem, e ao dar das contas diminui, e não reparte. Prende aqui, prende acolá, nunca falta um bom Compadre, que entretenha o acredor, ou faça esperar o Alcaide. Passa um ano, e outro ano, esperando, que ele pague, que uns lhe dão, para que junte, e outros mais, para que engane. Nunca paga, e sempre come, e quer o triste Mascate, que em fazer a sua estrela o tenham por homem grande. O que ele fez, foi furtar, que isso faz qualquer bribante, tudo o mais lhe fez a terra sempre propícia aos infames e eis aqui a personagem. Vem um Clérigo idiota, desmaiado com um jalde, os vícios com seu bioco, com seu rebuço as maldades: Mais Santo do que Mafoma na crença dos seus Árabes, Letrado como um Matulo, e velhaco como um Frade: Ontem simples Sacerdote, hoje uma grã dignidade, ontem selvagem notório, hoje encoberto ignorante. Ao tal Beato fingido é força, que o povo aclame, e os do governo se obriguem, pois edifica a cidade. Chovem uns, e chovem outros com ofícios, e lugares, e o Beato tudo apanha por sua muita humildade. Cresce em dinheiro, e respeito, vai remetendo as fundagens, compra toda a sua terra, com que fica homem grande, e eis aqui a personagem. Vêm outros zotes de Réquiem, que indo tomar o caráter todo o Reino inteiro cruzam sobre a chanca viandante. De uma província para outra como Dromedários partem, caminham como camelos, e comem como salvagens: Mariolas de missal, lacaios missa-cantante sacerdotes ao burlesco, ao sério ganhões de altares. Chega um destes, toma amo, que as capelas dos Magnates são rendas, que Deus criou para estes Orate frates. Fazem-lhe certo ordenado, que é dinheiro na verdade, que o Papa reserva sempre das ceias, e dos jantares. Não se gasta, antes se embolsa, porque o Reverendo Padre é do Santo Nicomedes meritíssimo confrade; e eis aqui a personagem. Vêem isto os Filhos da terra, e entre tanta iniqüidade são tais, que nem inda tomam licença para queixar-se. Sempre vêem, e sempre falam, até que Deus lhes depare, quem lhes faça de justiça esta sátira à cidade, Tão queimada, e destruída te vejas, torpe cidade, como Sodoma, e Gomorra duas cidades infames. Que eu zombo dos teus vizinhos, sejam pequenos, ou grandes gozos, que por natureza nunca mordem, sempre latem. Que eu espero entre Paulistas na divina Majestade, Que a ti São Marçal te queime, E São Pedro assim me guarde.