Versos Portuguese Gregório de Matos Senhores: com que motivo

Portuguese poem

Senhores: com que motivo

by (1636–1696)

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Senhores: com que motivo vós tentastes a fazer, sem castigo algum temer, um excesso tão nocivo? (disse o Algoz compassivo a um dos da carambola, quando o leva pela gola) e a gente, que ali se pôs, via a pé quedo o Algoz muitas vezes dar à sola.

Nestas retiradas suas, que fazia o tal madraço sacudia-lhe o espinhaço cum par de soletas cruas: dava-lhe nas costas nuas palmadas tão bem dispostas, que o Mulato co'as mãos postas disse dos açoutes dados, sendo dos mais os pecados, eu somente os levo às costas.

A gente, que isto lhe ouviu, por saber do caso atroz, pedia muito ao Algoz, lho dissesse, e ele se riu: finalmente prosseguiu a dizer o caso a uns poucos, que de pasmo ficam moucos a alguns deles quase mudos de ver, que quatro sisudos tomem ofícios de loucos.

Diz-lhe mais o Algoz pascácio, que sem terem nisso medras, os quatro atiraram pedras as janelas do Palácio: e que fazendo agarrácio dos três, escapou de um, mas cuidando se algum dos mais lizeiros ao peso, fora, o que escapou de preso, mais ligeiro, que nenhum.

Um inocente agarrado foi também na travessura, sendo que não faz loucura moço tão bem inclinado: outro será castigado pela ousadia sobeja e porque este vulgo veja (se com ele não se engana) fez, com que pela semana não fosse o Domingo à Igreja.

Estes outros dous, ou três, que se agarraram de noite, se se escaparam do açoite, terão por certo galés: Não de sentir o revés deste excesso, que fizeram, pois eles assim quiseram: mas vejo não sentirão, se por castigo lhes dão ir para donde vieram.

Vós, que do caso adversário em seguro vos pusestes, porque dos pés vos valestes não sejais tão temerário: sede nisto imaginário, pois tão bem destes à sola, que se noutra carambola vos meteis co amigo Baco, ele às vezes é velhaco, dará convosco em Angola.